Dicionário Decolonial de Saberes
Aqui você se sintoniza e aprende com termos e palavras que rompem com o colonialismo e eurocentrismo, e valorizam a potência e o poder do Sul Global.
Para isto, não utilizamos mais algumas palavras e termos em detrimento de outras que resgatam nosso valor, cultura, tradições e hegemonia.
Estamos aqui para afirmarmos e potencializarmos nosso valor. Começaremos algumas palavras para irmos treinando, e vamos alimentando nosso dicionário com novas palavras e termos ao longo de nossa jornada!
A
Afroperspectiva
Visão de mundo centrada nas experiências, epistemologias e cosmologias africanas e afro-diaspóricas. Ex: O pensamento de Abdias do Nascimento e Sueli Carneiro.
Ancestralidade
Ligação viva com os que vieram antes — não como passado, mas como presença orientadora e fundamento ético-existencial.
Autonomia
Capacidade de produzir saberes, modos de vida e organização política desvinculados de normas coloniais ou estatais. Ex: modos de vida indígenas, quilombolas e de movimentos populares.
C
Colonialidade
A permanência de hierarquias coloniais mesmo após o fim da colonização formal — nos saberes, nas relações raciais, no gênero, na política.
Colonialismo interno
Quando um Estado nacional oprime e marginaliza populações dentro de seu próprio território (ex: indígenas no Brasil).
Corpo-território
Ideia de que o corpo carrega as marcas da luta e da resistência e está conectado ao território em disputa. Muito usada nos feminismos comunitários.
Cosmologia
Conjunto de saberes e crenças sobre a origem e organização do mundo. Ex: cosmologia Yanomami, Bantu ou Yoruba.
D
Decolonialidade
Projeto ético-político que busca desarticular as lógicas da colonialidade e construir outros modos de ser, saber e viver.
Descolonização
Processo de ruptura com o colonialismo — pode ser territorial, epistemológico, cultural ou subjetivo.
Diáspora
Dispersão forçada de povos (ex: africanos escravizados), mas também resistência, reinvenção e circulação de culturas.
E
Ecologias de saberes (Boaventura de Sousa Santos)
Ideia de que não existe um único saber válido (ocidental), mas uma pluralidade de saberes que podem dialogar.
Epistemicídio
Destruição de saberes não ocidentais — como a imposição do português nas escolas indígenas ou o apagamento da medicina tradicional.
Eurocentrismo
Coloca a Europa como modelo universal de conhecimento, civilização, ciência e cultura.
F
Fronteira colonial
Linha imaginária (e real) que separa os corpos, saberes e territórios “civilizados” daqueles considerados “atrasados” ou “primitivos”.
G
Gênero como colonialidade
Segundo Maria Lugones, a própria construção moderna de gênero (homem/mulher, público/privado) foi imposta de forma violenta aos povos colonizados.
I
Invisibilização
Processo de apagamento simbólico ou material de sujeitos, saberes, culturas. Ex: quando currículos ignoram autores negros ou indígenas.
Interseccionalidade
Conceito desenvolvido por mulheres negras que articula raça, gênero, classe, sexualidade e território como sistemas de opressão interligados.
L
Lugar de fala
Refere-se à legitimidade de uma pessoa falar a partir de sua vivência situada. Ex: O discurso de uma mulher indígena sobre território não pode ser substituído por um especialista acadêmico branco.
M
Memória coletiva
Resgate das experiências históricas de um povo como forma de resistência, cura e fortalecimento identitário.
Modernidade/colonialidade
A modernidade europeia foi construída simultaneamente à colonialidade — ou seja, ao genocídio indígena, à escravidão negra, à exploração de povos.
N
Natureza como sujeito
Concepção comum entre povos originários que vê a natureza não como recurso, mas como ente vivo com direitos.
Neocolonialismo
Formas contemporâneas de dominação — como a financeirização de terras indígenas, a imposição de “ajustes” econômicos por organismos internacionais.
P
Pluriverso
Reconhecimento de múltiplas formas de viver, existir e conhecer — em oposição à ideia de um único modelo de civilização (universalismo).
Povos tradicionais
Comunidades que mantêm modos próprios de vida, organização e relação com a terra, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, etc.
Q
Quilombismo (Abdias do Nascimento)
Projeto político de organização comunitária negra com base em solidariedade, autonomia e resistência.
R
Racismo estrutural
Organização da sociedade que naturaliza desigualdades raciais, mesmo sem ações individuais explícitas de racismo.
Reexistência
Forma de resistência que não apenas reage, mas cria novas formas de vida com base em saberes ancestrais e coletivos.
S
Subalternidade
Condição dos que foram historicamente silenciados e excluídos dos centros de poder e do discurso dominante.
Sul Global
Termo geopolítico e epistemológico que indica os povos e territórios historicamente explorados, marginalizados e colonizados.
T
Território de vida
Território entendido não como propriedade, mas como espaço de relação, memória e cuidado. Ex: Terra indígena como ser vivo, e não “terra produtiva”.
Transmodernidade (Enrique Dussel)
Proposta de superação da modernidade ocidental a partir dos saberes e práticas dos povos oprimidos e colonizados.
Substitua “Nortear” – esta palavra válida a construção de uma hegemonia geográfica, moral e intelectual do Norte Global, em consequência do poder opressor de dominação colonial
Por: “Insular “- Aqui validamos o resgate de nossas origens enquanto potência e poder. O sul é o caminho que nos guia!
Significado: guiar(-se) numa dada direção moral, intelectual etc.; orientar(-se), regular(-se).
Substitua “Museu” – Esta palavra afirma como as invasões promovidas pelos colonizadores roubou arte, memórias, valores, tradições e culturas de povos oprimidos, violados, violentados e explorados pelos colonizadores.
Por “Galeria” – afirma um espaço de autonomia e resgate do poder artístico, histórico, cultural, de memória e geográfico do Sul Global.
Significado: instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico etc.
Substitua “Conhecimento”- afirma uma construção de modelo de poder intelectual eurocêntrico como “base” hegemônica.
Por “ Saber” – O saber é imaterial. Representa a sabedoria ancestral transmitida via oral, escrita e visual, representando a memória, poder, intelecto e cultura de povos e vozes do Sul Global.
Significado: ato e/ou efeito de conhecer. É ter ideia ou a noção de algo através de informações que lhe são apresentadas.